Estudo pioneiro liderado pelo IPEN/CNEN avalia as melhores espécies visando mais qualidade no ar e o consequente benefício à saúde da população

Projeto liderado pelos pesquisadores Paulo Sergio da Silva, do IPEN/CNEN, e Silvia Ribeiro de Souza, do Instituo de Pesquisas Ambientais, além do professor Thiago Nogueira, da Faculdade de Saúde Pública da USP, tem como objetivo reduzir as quantidades de material particulado do ar utilizando espécies vegetais biorremediadoras. Trata-se do estudo "Avaliação de Espécies Vegetais das Unidades de Conservação no Emprego de Tecnologias Verdes para Remediação da Poluição do Ar”, implementado em 2021, cujos resultados podem oferecer uma melhora na qualidade de vida dos cidadãos de São Paulo.

A proposta inicial é caracterizar as quantidades de material particulado presente no ar de algumas regiões da cidade de São Paulo. Em seguida, os pesquisadores selecionarão espécies vegetais com melhor potencial para retirar esses poluentes e realizarão uma série de testes, a fim de obter ganhos duradouros para uma melhora na saúde do paulistano.

Elaborada em 2019, o estudo foi apresentado, pela primeira vez, em um webinar em outubro de 2020 e concorreu em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) sobre propostas para resolução de problemas ambientais. Em 2021, foi readaptado para fazer parte do programa da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente de São Paulo (SIMA/SP). A duração estimada é de quatro anos, e a expectativa é de que, caso obtenha bons resultados, possa fundamentar a elaboração de políticas públicas.

O desenvolvimento de tecnologias verdes para proporcionar melhoras na saúde da população é uma alternativa em uma cidade caracterizada por alta emissão de poluentes, principalmente por veículos. Silva explica que isso ocorrerá a partir das propriedades naturais das espécies vegetais em retirar material particulado do ar. O pesquisador diz que a execução do projeto seria capaz de diminuir os índices de doenças respiratórias assim como os gastos em tratamento.

A adsorção é processo que permite às plantas retirarem as impurezas do ar. Trata-se da adesão do material particulado do ambiente à superfície das folhas, de modo que ambos fiquem interligados. As plantas que melhor tiverem essa propriedade sem que sua saúde seja comprometida serão as escolhidas.

Silva explica que o IPEN-CNEN será responsável por utilizar as técnicas desenvolvidas no Instituto para determinar a concentração dos elementos metálicos presentes no material particulado do ar, solo e folhas. A principal das técnicas aplicadas será a da Análise por Ativação Neutrônica.

Metodologia

A proposta é utilizar as plantas que melhor se adequem aos ambientes em que serão inseridas. Silva destaca a importância do planejamento na escolha das espécies vegetais, de acordo com cada local. O pesquisador diz que há critérios para essa escolha e indica que o perfil desejado para as plantas é que sejam resistentes, não consumam água em excesso, não causem danos ao ambiente e sejam 100% nativas, entre outros fatores.

Silva explica ainda que a primeira etapa consiste em caracterizar e identificar as espécies vegetais biorremediadoras para selecioná-las. O passo seguinte é a realização de testes efetivos, com monitoramento da eficiência das plantas colocadas em alguns pontos estratégicos.

De acordo com o pesquisador, as espécies de pequeno porte serão testadas em estufas e, dependendo da adesão da população, também podem ser monitoradas de dentro das casas de possíveis voluntários. Já os testes com árvores de grande porte incluem análises em unidades de conservação. Em uma terceira etapa, a partir dos dados obtidos, será feita uma estimativa percentual sobre a melhora na saúde da população com a implantação dessas espécies vegetais.

Foram selecionadas duas unidades de conservação para os testes iniciais: o Parque Estadual Fontes do Ipiranga – zona sul de São Paulo; e a Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade – Rio Claro-SP. O primeiro local foi escolhido por estar localizado na região da cidade de São Paulo, uma metrópole que sabidamente apresenta elevados níveis de poluição.

"Já a escolha do segundo se deve às elevadas concentrações de material particulado nos arredores devido à presença de um polo cerâmico e episódios frequentes de incêndios em canaviais. Esses estudos permitirão testar a eficiência das plantas em casos mais extremos!”, explica Silva, que integra o Centro do Reator de Pesquisas (CERPq) do IPEN/CNEN.

O trabalho dentro das unidades de conservação consiste em analisar as espécies nativas que melhor se encaixem no perfil desejado. Inicialmente, elas serão analisadas na área central do parque e, gradualmente, serão implementadas e analisadas em pontos cada vez mais distantes. As espécies vegetais serão dispostas, gradualmente, das regiões com menos poluição até as mais poluídas, partindo do centro das unidades de conservação para o exterior.

O objetivo final é estabelecer o tipo de planta e a quantidade que deve ser inserida no ambiente para que seja capaz de reduzir os índices de determinado poluente presente no ar. A grande expectativa é poder contribuir com a melhoria da qualidade de vida da população.

Parceiros

Também participam do projeto pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ambientais, da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP) e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP). No IPEN-CNEN, Larissa Otubo, do Centro de Tecnologia dos Materiais (CECTM), é responsável por dar suporte na parte das análises da capacidade de resistência das espécies.

Em âmbito internacional, o projeto foi inserido e aprovado em outro edital da FAPESP, para concorrer a uma parceria entre São Paulo e Reino Unido na área de meio ambiente. Esta ampliação do projeto leva o nome "Infra-estrutura Verde das Cidades para Resfriamento Urbano (GreenCities)” e, no Brasil, é encabeçado pela professora Maria de Fatima Andrade, do IAG.

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Leonardo Noaves, estagiário
(com supervisão)