- Imagem 1: O pesquisador do IPEN apresenta o MEA (Membrane Electrode Assembly), o núcleo da célula a combustível a hidrogênio. Imagem 2: Montagem experimental de laboratório destinada ao ensaio de uma célula eletroquímica (célula a combustível), no IPEN. Fonte: Arquivo IPEN
Segundo Marcelo Linardi, pesquisador emérito do IPEN, foi a partir da década de 1990 que “(...) outras áreas de interesse em C&T&I nacionais, além da nuclear, foram incorporadas ao portfólio de P&D do IPEN, entre elas: materiais, lasers, biotecnologia, energias renováveis e meio ambiente” (LINARDI, 2016). As iniciativas implantadas desde então contribuíram para fortalecer as atividades de ciência, tecnologia e inovação no Instituto, incluindo ações de proteção do conhecimento, transferência de tecnologia e gestão de projetos, posteriormente associadas ao atual Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) e ao Escritório de Gestão de Projetos (EGP).
As inovações desenvolvidas pelo IPEN, contudo, não se restringiam às novas áreas incorporadas ao seu campo de atuação. O Instituto também avançava em atividades nucleares tradicionais, como o ciclo do combustível, a fabricação de radiofármacos para a medicina nuclear e a tecnologia das radiações. A essas frentes somavam-se as pesquisas em biotecnologia, lasers, células a combustível, hidrogênio e desenvolvimento de materiais. Em grande medida, esses campos correspondiam às perspectivas de pesquisa e desenvolvimento projetadas pelo Instituto para o novo milênio.
Em 2002, importantes marcos foram registrados nas áreas tradicionais de atuação institucional. No ciclo do combustível nuclear, o Instituto consolidou o domínio do processo de obtenção do urânio metálico, ampliando as condições para o desenvolvimento nacional das diferentes etapas dessa tecnologia.
Na medicina nuclear, a aquisição de um novo cíclotron, realizada poucos anos antes, permitiu que importantes radiofármacos passassem a ser produzidos semanalmente a partir de 2002. Entre eles estava o gálio-67, empregado em exames de cintilografia para mapear abcessos, inflamações crônicas ou agudas e no acompanhamento de pacientes com linfoma.
Em tecnologia das radiações, o ano assinalou o início do projeto e da construção do Irradiador Multipropósito de Cobalto-60, que representaria um avanço na capacidade de processamento por radiação de quantidades em escala industrial.
A consolidação desses progressos também se refletiu nos processos da qualidade. Em 2002, a Fundação Vanzolini concedeu a certificação ISO9001:2000 aos setores de Aceleradores de Cíclotron, Engenharia Nuclear e do Reator de Pesquisa, além de confirmar a certificação do Centro de Radiofarmácia.
Entre os novos campos de inovação do IPEN, 2002 foi particularmente estratégico para a área de células a combustível e de tecnologias relacionadas ao hidrogênio. Dois anos antes, o Instituto havia iniciado uma frente de pesquisa dedicada a fontes energéticas eficientes e de baixo impacto ambiental. Em 2002, o Ministério da Ciência e Tecnologia elaborou o Programa Brasileiro de Hidrogênio e Sistemas de Células a Combustível, com a participação de universidades, institutos de pesquisa e empresas. Pesquisadores do IPEN tiveram atuação relevante nessa iniciativa, destinada a integrar esforços nacionais, estimular o domínio de tecnologias próprias e preparar o país para o desenvolvimento de sistemas energéticos baseados em hidrogênio.
Os desafios eram amplos. Envolviam não apenas o aperfeiçoamento das células a combustível, mas também a produção, o armazenamento e a distribuição do hidrogênio, a formação de recursos humanos, a regulamentação de segurança, a padronização tecnológica e a articulação entre instituições governamentais, empresas e prestadores de serviços. Ao participar desse movimento, o IPEN inseria-se na construção de uma possível economia do hidrogênio no Brasil e reafirmava sua capacidade de associar a tradição nuclear à busca por novas formas de geração de energia limpa para o futuro (LINARDI, 2010).
Referências:
GORDON, Ana Maria Pinho Leite. Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, 1956-2000: um estudo de caso à luz da ciência, da tecnologia e da cultura brasileira. 2003. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
INSTITUTO DE PESQUISAS ENERGÉTICAS E NUCLEARES. Informe anual 2002: ciência e tecnologia para o novo milênio. São Paulo: IPEN, 2002. Disponível em: Biblioteca Digital Memória da CNEN. Acesso em: 3 ago. 2026.
LINARDI, Marcelo. Hidrogênio e células a combustível: Programa Brasileiro de I&D. Trabalho apresentado no workshop Advances in Fuel Cells and Hydrogen, Materials for Energy, Torres Vedras, Portugal, abr. 2010.
LINARDI, Marcelo (org.). O IPEN e a inovação tecnológica: passado, presente e futuro. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2016.

